Muito se fala hoje em dia sobre o yoga e as diversas escolas e formas de praticá-lo, mas um dos aspectos mais importantes, por vezes, fica relegado aos livros: a parte filosófica.
O yoga, para além de uma prática corporal, é, na verdade, uma filosofia de vida.
É uma maneira de observar o mundo, mover-se por ele e, assim, buscar autoconhecimento e realização..
Essa prática é milenar e, por isso, não há precisão sobre seu surgimento até hoje. No entanto, o yoga foi sistematizado e amplamente difundido.
Essa sistematização está nos Yoga Sutras de Patanjali, um conjunto de aforismos que explicam o yoga.
Dentro dos Yoga Sutras, encontramos o Ashtanga Yoga, ou os Oito Passos do Yoga.
E é aqui que quero chegar, pois o yoga é uma filosofia tão profunda que não poderia ser abordada completamente em um único texto—seria necessário um compêndio.
Os oito passos do Yoga
Os oito passos do yoga são recomendações de atitudes que devemos desenvolver em nossa vida. Eles são:
1️⃣ Yama (proscrições)
2️⃣ Niyama (prescrições)
3️⃣ Asana (posturas)
4️⃣ Pranayama (controle de energia)
5️⃣ Pratyahara (abstração dos sentidos)
6️⃣ Dharana (concentração)
7️⃣ Dhyana (meditação)
8️⃣ Samadhi (iluminação)
Quero destacar os dois primeiros: yamas e niyamas.
Embora todos os passos sejam essenciais e representem conhecimentos e estágios necessários para alcançar o propósito do yoga — a união entre corpo, mente e espírito — são os yamas e niyamas que orientam a base ética e comportamental para uma vida equilibrada, plena e livre do sofrimento.
Yamas
A palavra yama significa “controle“.
Os yamas podem ser entendidos como abstenções, ou seja, atitudes que devemos evitar, pois causam danos a nós mesmos e aos outros.
São cinco os yamas:
Ahimsa, a não violência.
A não-violência aqui deve ser compreendida no sentido mais amplo e profundo.
Significa não ser violento consigo mesmo nem com qualquer outro ser vivo.
Isso inclui, inclusive, a nossa alimentação.
Quando entendemos os danos que a violência causa e nos abstemos de utilizá-la para resolver conflitos, sejam internos ou externos, ocorre uma transformação poderosa na maneira como nos relacionamos.
Satya, a verdade.
Sobre a verdade, aqui não se trata apenas de dizê-la, mas de vivê-la.
Embora não exista uma verdade absoluta no mundo, o princípio é pensar, falar e agir em concordância.
Ser sincero consigo e com o outro — com honestidade, mas sem grosseria.
Viver de acordo com esse princípio exclui práticas como a corrupção e muitas outras condutas prejudiciais.
Asteya, não roubar.
O conceito de não roubar no yoga vai além do simples ato de não pegar objetos que não nos pertencem.
Ele se estende para algo muito mais profundo: não roubar do outro aquilo que ele possui de único, como suas ideias, sua energia e seu esforço.
No campo intelectual e abstrato, isso implica em respeitar a criatividade e o trabalho alheio, não se apoderando do que o outro produz, seja no plano material ou nas esferas mais sutis do pensamento e da expressão.
Brahmacharya, ou abstenção da energia íntima.
Este conceito é entendido de formas diferentes e depende também da linhagem de yoga e dos mestres que a ensinam.
No sentido mais restrito, pode ser entendido como abstinência sexual, o que era, na antiguidade, praticado por yogis brahmanes.
Porém, podemos entendê-lo também como o uso consciente dessa energia, de forma direcionada e responsável.
Alguns a entendem como fidelidade nos relacionamentos.
Aparigraha, contentar-se somente com o necessário.
A ideia aqui é viver com o que de fato precisamos para nossa vida.
Seria viver sem excessos e extravagâncias.
Trata-se de um convite para refletir sobre o consumo desenfreado dos dias de hoje e o quanto isso impacta nosso bem-estar e o nosso planeta.
Observar o que nos move a consumir e acumular tanto.
Pode ler mais sovre o coniceito de consumo consciente neste link.
Niyamas
A palavra niyama pode ser traduzida como observância, por isso, uma prescrição.
Os niyamas somam também 5 passos:
Saucan, a pureza.
Este niyama representa o estado de pureza, mas um estado de pureza que envolve todo o ser.
Aqui, também entendemos a necessidade de asseio e limpeza do nosso corpo e mente, assim como do ambiente onde estamos e vivemos.
Essa noção de limpeza traz harmonia para a mente e para o entorno.
Santosha, o contentamento.
Propõem o contentamento consigo mesmo e com a vida.
Entendemos aqui o contentamento com quem somos hoje e com aquilo que possuímos agora.
É poder olhar para o todo e se sentir sereno, bem, feliz.
Sentir que as coisas estão no seu devido lugar e isso nos traz paz.
Tapas, o esforço sobre si mesmo.
Também é muitas vezes entendido como disciplina.
Para desenvolver tapas, é necessário ir além do que diz a mente nos momentos de dúvida, ir além do limite do corpo de forma consciente, mas buscando aprimoramento (lembrando da não-violência).
É a busca por se auto-superar diariamente, um pouquinho a cada dia, em tudo o que puder.
Svadhyaya, o auto estudo.
Nos autoestudarmos é olhar para nós mesmos de forma sincera, consciente e crítica, buscando nos perceber.
É observar como respondemos às diversas situações e, através dessa análise, poder melhorar no que for possível.
No antigo texto védico Baudhayana Dharma Shastra, o svadhyaya é entendido como um meio de superar os erros do passado e qualquer culpa.
Esse processo de autoobservação no yoga também se dá por meio da meditação.
Ishvarapranidhana, e entrega ao Supremo.
Este último niyama nos convida a nos entregar à perfeição da vida e ao seu fluxo.
Embora traga a ideia de entrega ao Supremo, este conceito se estende e é compreendido hoje de forma mais ampla, para poder abarcar todas as manifestações divinas e crenças pessoais.
Essa entrega pode ser compreendida como devoção.
Quando realizamos algo de forma devotada, simplesmente o fazemos da maneira mais sincera e amorosa, independentemente do retorno que possa haver.
E preciso fazer yoga para fazer a diferença no mundo?
Não necessariamente. Qualquer pessoa pode seguir esses passos, que são a base da prática do yoga.
O que necessitamos é empenho e um desejo real de fazer mudanças em nós mesmos.
Seguindo esses passos e fazendo nossas mudanças pessoais, em um segundo momento, automaticamente estenderemos isso aos demais.
Quanto mais pessoas engajadas em mudanças pessoais, mais mudanças sociais teremos.
É um efeito que reverbera para os outros, como bem dizemos: um exemplo vale mais que mil palavras.
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Author: Denis Renna, graduado em Direito e apaixonado por temas ambientais e sociais.
Um texto simples, claro, objetivo, pra falar de uma filosofia profunda e de extrema relevância para que possamos tomar consciência do nosso lugar nesse plano. Parabéns!
Que bom que você gostou, Patrícia! Obrigado por ler e comentar! Você pratica alguma forma de yoga?